Para entender a verdadeira essência artística, livre e excêntrica de Nova York, é preciso pegar o metrô e descer até a última estação no litoral do Brooklyn em um sábado ensolarado de junho.
Foi exatamente isso que fizemos para cobrir a 43ª edição da Mermaid Parade em Coney Island.
Considerada formalmente a maior parada de arte popular e pública de todos os Estados Unidos, o desfile não tem nada de corporativo ou engomado: é uma verdadeira explosão de irreverência, humor e amor ao mar, marcando a abertura do verão na praia mais histórica da cidade.
Criada em 1983 pela organização sem fins lucrativos Coney Island USA, a parada nasceu com o propósito explícito de valorizar a mitologia marítima americana, apoiar os artistas independentes locais e revitalizar a região costeira após décadas de abandono industrial.
Mais de quatro décadas depois, o evento tornou-se uma referência mundial de liberdade de expressão, reunindo centenas de milhares de pessoas vestidas — e despidas — das formas mais criativas imagináveis, celebrando a arte feita à mão e o espírito boêmio do litoral.
Cobrir a Mermaid Parade sob o olhar jornalístico de blog é mergulhar em um clima que lembra bastante o carnaval de rua brasileiro, mas com um toque retrô tipicamente nova-iorquino.
O ambiente é extremamente acolhedor, democrático e alegre. Pessoas de todas as idades, tipos físicos e origens usam a festa para homenagear criaturas marinhas reais e lendárias, protestar com bom humor contra a poluição dos oceanos ou simplesmente brincar com a própria imaginação debaixo de muito glitter e protetor solar.
Onde aconteceu a Mermaid Parade 2025

O cenário da 43ª edição não poderia ter mais personalidade: as ruas e a orla marítima de Coney Island, no extremo sul do Brooklyn.
A concentração dos foliões e dos carros alegóricos motorizados teve início ao longo da Surf Avenue, começando na altura da West 21st Street.
Esse trecho é cercado por cartões-postais da cultura de entretenimento americana, como a famosa lanchonete original da Nathan’s Famous e as montanhas-russas centenárias do Luna Park.
A marcha percorreu a Surf Avenue até a altura da West 10th Street, onde os participantes fizeram a transição das ruas asfaltadas para o icônico Riegelmann Boardwalk — o calçadão de madeira centenário que acompanha a praia.
Desfilar sobre as tábuas de madeira à beira-mar, com a brisa do oceano Atlântico soprando e a roda-gigante histórica Wonder Wheel girando ao fundo, cria um visual inconfundível para as lentes dos fotógrafos e repórteres credenciados.
A dispersão do cortejo oficial aconteceu ao longo da praia e nas imediações do calçadão principal.
Como o evento termina praticamente dentro do mar, o encerramento natural da parada foi um mergulho coletivo dos participantes fantasiados nas águas do Atlântico, seguido por apresentações musicais ao ar livre que tomaram conta dos quiosques e bares de praia durante o restante da tarde e da noite ensolarada de verão.
Como foi a 43ª Mermaid Parade

A 43ª edição da Mermaid Parade brilhou pela originalidade visual dos participantes.
As fantasias, quase todas confeccionadas manualmente pelos próprios desfilantes nos meses anteriores, iam desde sereias e tritões glamourosos adornados com conchas autênticas, escamas brilhantes e coroas de corais, até criações satíricas como águas-vivas iluminadas por luzes de LED, polvos gigantes feitos com balões e ativistas caracterizados como peixes presos em redes plásticas para alertar sobre a preservação ambiental marinha.
A trilha sonora do cortejo foi outro grande atrativo. Pequenas fanfarras de rua, conjuntos de percussão improvisada, baterias com ritmos latinos e bandas de rock de garagem instaladas nas caçambas de picapes e carros antigos decorados deram o tom descontraído do desfile.
O público nas calçadas não se contentou em apenas assistir: a interação foi constante, com trocas de elogios, fotos espontâneas e muitos aplausos para os participantes que desfilavam em cadeiras de rodas decoradas como tronos submarinos ou empurrando carrinhos de bebê temáticos.
Como manda o regulamento histórico do evento, um júri formado por personalidades da cultura alternativa do Brooklyn avaliou as fantasias mais criativas ao longo do percurso, aceitando inclusive “pequenos subornos bem-humorados” de participantes — uma tradição satírica da parada que inclui o oferecimento de doces, flores e lembrancinhas caseiras aos juízes.
O desfile também contou com o tradicional casal de Rei Netuno e Rainha Sereia, representados por artistas convidados da cena independente local.
A segurança e o suporte aos pedestres funcionaram de forma exemplar, com forte presença de socorristas atentos à hidratação do público sob o sol forte e policiamento focado na organização das passagens transversais para a praia, garantindo que o evento transcorresse sem contratempos.
A celebração da autenticidade fora do circuito óbvio

Cobrir presencialmente a Coney Island Mermaid Parade é ter a certeza de que Nova York é infinitamente maior do que os cartões-postais padronizados de Manhattan.
O evento mostra uma comunidade orgulhosa de sua história litorânea, que valoriza a arte pura e que sabe receber visitantes com calor humano e sorriso aberto.
Para a linha editorial do blog, mostrar uma celebração com tanta personalidade reafirma o compromisso de levar ao leitor conteúdos ricos, diferentes e cheios de autenticidade sobre o que realmente acontece nas ruas da cidade.







