High Line e Promenade Plantée: dois extremos de uma mesma proposta

Em 2017, durante minha permanência em Portugal como pesquisador da Fundação Gulbenkian, aproveitei um final de semana para dar uma esticada até Paris e passar por alguns lugares que há muito tempo vinha planejando conhecer. Um destes lugares era o Promenade Plantée, uma antiga estrada de ferro elevada que percorria 4,5 Km entre a praça da Bastilha e o Bois de Vincennes.

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Caminhos emoldurados pelos canteiros e tendo ao fundo os tradicionais prédios parisienses

Construída em 1853, a estrada de ferro funcionou intensamente até meados de 1969, quando foi então abandonada. Em 1988 surgiu a idéia de transformar a antiga estrutura em um parque linear que pudesse funcionar como local de convivência para os moradores do bairro. A partir de então, começaram as intervenções e, finalmente, em 1993 o 12éme Arrondissement ganharia esta fabulosa área de lazer.

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Os caminhos do Promenade Plantée também interagem com a arquitetura contemporânea

Os arquitetos paisagistas Jacques Vergely e Philippe Mathieux usaram um tipo de vegetação nativa, bastante comum nas estradas de ferro da França, em perfeita harmonia com árvores de pequeno e médio porte, arbustos e caminhamentos pavimentados, seguindo as práticas do paisagismo contemporâneo. Parte da estrutura era sustentada por uma arcada de alvenaria de tijolos e pedras que passou, então, a abrigar pequenos comerciantes locais especializados em produtos artesanais, como peças de couro, objetos de decoração e chocolates.

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A antiga estrutura de arcos, conhecida como Viaduc des Arts, abriga agora o comércio local

Mesmo nos dias frios do final do inverno, quando estive no Promenade Plantée, foi possível ver moradores locais fazendo sua caminhada matinal, correndo ou passeando com as crianças. Sem dúvida, aquela havia sido uma ação de revitalização urbana que realmente deu certo.

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A apropriação do Promenade Plantée é feita essencialmente por moradores locais

O sucesso do Promenade Plantée foi tão grande que anos depois seria reproduzido em Nova York. Entretanto, os resultados seriam muito diferentes. Assim como em Paris, Nova York também dispunha de uma estrada de ferro elevada que estava em total abandono e que seria, posteriormente, transformada em um parque linear.

 


Dos West Side Cowboys a Diane von Fürstenberg


Em meados do século XIX, quando Nova York experimentava um crescimento sem precedentes na história americana, foi construída uma estrada de ferro bem próxima das margens do Rio Hudson, onde passa hoje a 10ª Avenida e que iria servir como um dos principais meios de transporte de mercadorias da incipiente indústria nova-iorquina. Foram tantos os acidentes com pedestres e coches que a New York Central Railroad, empresa que controlava a estrada de ferro, contratou alguns cavaleiros para que, no momento de aproximação de um trem, agitassem bandeiras coloridas alertando os pedestres do perigo iminente. Com o tempo, estes cavaleiros começaram a ser chamados de West Side Cowboys.

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Foto dos West Side Cowboys foi colocada em um painel em uma das entradas do High Line

Durante um grande projeto de requalificação urbana do West Side, logo após a crise de 1929, a antiga estrada de ferro seria substituída por uma estrutura metálica elevada alguns metros do nível das ruas. Esta estrutura, anos mais tarde, se transformaria no badalado High Line que conhecemos hoje.

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A antiga estrutura e os novos acessos: escadas e elevadores.

A proposta era tão sofisticada que transferiu os trilhos e, por conseguinte, o tráfego dos trens para o meio dos quarteirões, descongestionando as vias públicas. Desta forma, os trens passavam pelos fundos das fábricas e poderiam, inclusive, parar dentro de alguns galpões, como mostram alguns vestígios ainda existentes.

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A vegetação já foi um dia os trilhos que conduziam os trens para o interior do prédio. Nitidamente uma nova parede que veda o antigo acesso.

A estrutura original fazia a ligação da Rua 34 com a Spring Street, no SoHo, que na época era a mais promissora área industrial de Nova York. Hoje, o trecho entre a Spring Street e a Rua Gansevoort já não existe mais, o que reduziu a extensão do High Line para os atuais 2,3 Km. A partir dos anos 1950, a popularização do uso dos caminhões fez com que a estrada de ferro entrasse em decadência. Em 1980, o último trem correu por aqueles trilhos e, logo em seguida, a estrada foi abandonada e quase demolida pelo então prefeito Rudolph Giuliani (1994/2001). Em 1999, sob o comando da designer de moda Diane von Fürstenberg, foi criada a ONG Amigos do High Line, que tinha como objetivo proteger aquela estrutura que havia se incorporado à imagem do bairro.

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Escritório/atelier/loja de Diane von Fürstenberg, visto do High Line

Em 1997, Diane von Fürstenberg havia transferido seu escritório/atelier para as proximidades do High Line, durante o processo de gentrificação do Meatpacking District, o bairro que durante décadas havia abrigado uma grande concentração de açougues e frigoríficos e que se tornara terrivelmente degradado durante os anos 1970. A revitalização do High Line só foi possível em decorrência das ações da iniciativa privada, que conseguiu arrecadar uma significativa quantia por meio de eventos beneficentes. A complementação da verba saiu dos cofres públicos durante a gestão de Michael Bloomberg.

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Diferentemente do original parisiense, o High Line está sempre abarrotado de visitantes. Detalhe para a voluntária que se ocupa da manutenção dos jardins.

Em 2009, finalmente, o projeto idealizado pelo escritório de arquitetura Diller Scofidio + Renfro, que contou com a contribuição do paisagista Piet Oudolf, seria entregue aos moradores do bairro. Assim como o original parisiense, os designers preservaram a vegetação que havia nascido de forma espontânea entre os trilhos e acrescentaram várias espécies de árvores e arbustos, peças de design contemporâneo como bancos e espreguiçadeiras e pequenos recantos de convivência. Entretanto, aquela tranquilidade experimentada no Promenade Plantée é algo praticamente inexistente no High Line, onde diariamente uma multidão de turistas e moradores locais se cruzam em meio a caminhos que alargam e se estreitam ao longo do percurso.

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As espreguiçadeiras se movimentam sobre os antigos trilhos apoiadas em rodízios

 

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No meio da multidão, um recanto de paz

 


Nova York é um espetáculo!


Existe um possível explicação para que o resultado final do High Line fosse tão diferente do original francês. Não seria exagero afirmar que Nova York é hoje uma das mais significativas antenas emissoras de representações, com alcance quase que ilimitado em todo o planeta. Esta força que faz com que Nova York seja referência para o mundo todo começou a aflorar ainda no início do século XIX, quando a cidade iniciou uma trajetória que iria transformá-la no carro-chefe da nação.  A vocação para o sucesso se deu, em parte, em decorrência do empreendedorismo de seu povo e principalmente de personalidades como DeWitt Clinton, Vanderbilt, Astor, Carnegie, Frick, Rockefeller e J. P. Morgan, que deixaram fortes marcas no que se transformaria no futura em umas das cidades mais fascinantes do mundo.

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Como consequência, seria natural que tudo que fosse criado na cidade that never sleeps, como disse Frank Sinatra, se tornasse referência para o restante do mundo. Tanto que o High Line transcendeu a proposta inicial, baseada na experiência do Promenade Plantée e o que se vê hoje é o resultado de uma simples revitalização de área degradada elevada à categoria de espetáculo.

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A arquitetura de Nova York elevada à categoria de espetáculo

O sucesso do High Line, entre os moradores de Nova York e turistas do mundo inteiro, foi tão arrebatador que conseguiu transformar todo o entorno imediato em uma das áreas mais badaladas e valorizadas da Big Apple. O primeiro trecho do High Line, inaugurado em 2009, percorre parte do Meatpacking District, uma área que na época já passara por um intenso processo de gentrificação e já começava a atrair a atenção dos grandes investidores.

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A supervalorização da área atraiu novos empreendimentos

Prédios de salas e apartamentos começaram a ser encomendados aos mais renomados arquitetos. A primeira intervenção no cenário do High Line foram as formas sinuosas da sede da IAC, uma empresa de alta tecnologia que encomendou um projeto ao polêmico arquiteto americano Frank Ghery em 2007. Na sequência, foi erguida uma torre residencial projetada pelo francês Jean Nouvel e, recentemente, o ousado prédio da arquiteta iraquiana Zaha Hadid.

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Em meio aos jardins surgem as formas sinuosas da sede da IAC – à esquerda. A fundo, a torre de Jean Nouvel

 


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Pura ousadia! Assim é o prédio da iraquiana Zaha Hadid

Mas as grandes atrações do High Line são, sem dúvidas, o Chelsea Market, antiga fábrica da Nabisco convertida em um concorrido shopping e o novo Whitney Museum, obra do italiano Renzo Piano.

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O trecho do High Line passa sob o Hotel Standard

Em breve, o High Line irá ganhar uma atração que promete ser a grande sensação da cidade, mostrando que Nova York não cansa de se superar. A cidade, que mal acabou de processar a inauguração da incrível área do novo World Trade Center, já se prepara para receber mais um complexo arquitetônico. Estamos falando de Hudson Yards, um conjunto composto por 13 prédios que está sendo construído em uma área de 120 mil metros quadrados, onde existe hoje e continuará existindo após a conclusão do projeto, um pátio de manobras e estacionamento de trens que operam na vizinha Penn Station.

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O Hudson Yards visto do High Line. À esquerda, os trens que operam na Penn Station ainda podem ser vistos. Em breve, o pátio de manobras será coberto por uma imensa laje ajardinada

Quando inaugurado, Hudson Yards será o maior empreendimento imobiliário particular dos Estados Unidos, superando o Rockefeller Center. O complexo terá múltiplas funções, com milhares de metros quadrados de espaços comerciais, 4000 unidades residenciais, uma escola, um hotel com a grife Equinox, um complexo de mais de 100 lojas e restaurantes de chefs renomados e uma construção que já se anuncia como a futura grande atração de NovaYork.

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O Hudson Yards já se destaca na paisagem de Nova York. A torre principal irá abrigar um observatório ao ar livre e um restaurante inteiramente envidraçado, ambos no 100º andar.

Será uma gigantesca estrutura metálica com 45 metros de altura e que se estabelece como uma obra que transita entre a arquitetura e a escultura. “A embarcação” ou “The Vessel”, como foi chamada por seus idealizadores, foi criada para ser a peça central do Hudson Yards. Há quem diga que “The Vessel” terá tanta importância para o novo complexo quanto a árvore de Natal para o Rockefeller Center.

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“The Vessel”, a nova grande atração de Nova York, ainda em construção

Quem quiser conhecer esta nova atração, seguindo as indicações dos designers, terá que ter fôlego para subir e descer os 154 lances de escadas, que circundam um grande átrio circular e que são interligadas por 80 patamares que funcionam como pequenos mirantes. Aqueles que têm alguma dificuldade de locomoção também poderão visitar este novo point do turismo nova-iorquino, porque há a previsão de um elevador que levará o visitante até o topo da estrutura, como prometeram os designers. Vale a pena colocar no roteiro.


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Formado em Arquitetura, tem mestrado em História pela UFMG e está em fase final do doutorado em História da Arquitetura pela Universidade Federal de Minas Gerais. Em 2017, foi bolsista pesquisador pela Fundação Calouste Gulbenkian de Lisboa. Mora há 10 anos no Upper East Side, o bairro da Uptown Girl de Billy Joel e dos seriados Gossip Girl e Revenge.

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