As controvérsias do processo de gentrificação do Harlem

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O termo gentrificação, por si só, já trás consigo uma turbulenta discussão que envolve os poderes público e privado, os urbanistas e a população em geral. Neste tipo de ação, os mecanismos usados durante o processo, inevitavelmente dividem as opiniões.

Por um lado é bastante prazeroso acompanhar as transformações de uma área degradada, mas por outro, estas transformações nunca chegam sozinhas e quase sempre vêm acompanhadas de perdas significativas, além do inevitável aumento no custo de vida.

É o que vem acontecendo com o bairro do Harlem, localizado no norte da ilha de Manhattan.

As transformações têm acontecido de forma mais intensa desde 1994, quando Rudolph Giuliani chegou à prefeitura de Nova York, trazendo como uma das bases de sua plataforma política, a promessa de melhorar a qualidade de vida e a segurança dos nova-iorquinos.

O Harlem surgiu no século XVII, durante a ocupação holandesa de Manhattan, como parte das estratégias de expansão dos Domínios Ultramarinos da Holanda, que consistia em ocupar a nova terra para poder conquistá-la.

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Desta forma, logo após a fundação de Nova Amsterdam (atual Nova York), os holandeses se encarregaram de criar novos assentamentos, sendo que um deles, localizado na parte norte da ilha, ganhou o nome de Nova Haarlem (escrito com a mesma grafia da cidade holandesa de Haarlem).

Já no século XIX, Nova Haarlem havia se tornado um subúrbio elegante de Nova York, reduto de imigrantes italianos, irlandeses, alemães e muitos judeus. A grande transformação, que iria mudar definitivamente as feições do Harlem, aconteceu nos primeiros anos do século XX, a partir das ações do corretor de imóveis Philip Payton.

Aproveitando um grave momento de crise do mercado imobiliário, Payton conseguiu, com muita dificuldade, abrir as portas do bairro para os afrodescendentes que, até então, se concentravam em áreas espalhadas pela cidade.

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Pormenor da riqueza dos detalhes arquitetônicos das construções do Harlem

Mesmo tendo que enfrentar o forte preconceito, presente nas mentes e nas bocas dos tradicionais moradores do Harlem, Payton conseguiu alugar e vender os primeiros imóveis para os afrodescendentes.

Esta conquista, associada ao clima de tolerância, tão característico dos estados do norte do país, contribuíram de forma significativa para uma migração em massa para o Harlem. Em menos de duas décadas os afrodescendentes já somavam mais de 50.000 pessoas, fazendo com que o Harlem ficasse conhecido como The Capital of Black America (A capital da América Negra).

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Rua típica do Harlem

Em poucos anos, o Harlem já abrigava a maior concentração de afrodescendentes dos Estados Unidos, com forte viés cultural, sobretudo para a música. Durante os anos 1930, conhecidos como a Renascença do Harlem, grandes nomes do Jazz se apresentavam no lendário Apollo Theater e em bares como o Cotton Club, o que contribuiu para que o Harlem se tornasse um dos berços da soul music americana.

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O lendário Apollo Theatre

Após a decadência da Renascença do Harlem, o bairro ainda conseguiu manter suas raízes culturais, mesmo nos anos 1970 e 1980, quando se tornou uma região com altíssimos índices de criminalidade. Mas com a chegada de Rudy Giuliani à prefeitura, no início dos anos 1990, o Harlem finalmente começaria a passar por um complexo processo de gentrificação complementado por ações de revitalização urbana.

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O Harlem é um dos principais focos de especulação imobiliária, com altíssima taxa de valorização.

Por conseguinte, a sensível redução dos índices de violência, associada à supervalorização dos imóveis em Manhattan contribuíram para que certas áreas de Nova York se tornassem alternativas para a já congestionada região ao sul da Rua 110.

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As tradicionais Brownstones Houses

De todas as áreas periféricas de Manhattan, o Harlem era, sem dúvidas, uma das mais promissoras, não apenas por estar dentro de Manhattan, mas também pela proximidade de Midtown e por estar muito bem servido de linhas do metrô.

 


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A valorização dos imóveis, que começou de forma acanhada, alcançou uma dimensão assustadora nos últimos anos.

O que se percebe hoje, como consequência disso, são prédios antigos que estavam degradados pela ação do tempo, sendo sistematicamente substituídos por novos prédios, com suas inexpressivas fachadas de vidro e materiais contemporâneos que não mantêm nenhuma relação com o local.

Esta nova arquitetura já compete com as tradicionais Brownstones, as casas construídas com as inconfundíveis pedras marrons e que ainda podem ser admiradas em várias ruas do bairro.

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Uma terra de contrastes: a nova arquitetura do Harlem

Estes novos imóveis, por sua vez, atraíram novos moradores que nunca mantiveram qualquer ligação com o bairro. Consequentemente, chegaram também as grandes redes de lojas e restaurantes como Banana Republic, Red Lobster e American Eagle.

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Novas lojas, novos prédios

Em entrevista ao Metro New York, jornal de grande circulação diária, moradores locais afirmaram que o Harlem estaria sofrendo um processo de “embranquecimento”, o que seria muito nocivo para a alma cultural do bairro.

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O pomo da discórdia: supermercado da rede Whole Foods

Em julho de 2017, o processo de gentrificação do Harlem parece ter alcançado seu ponto de ebulição, com a inauguração de uma imensa filial da rede de supermercados Whole Foods, recentemente adquirida pela gigante Amazon.

O incômodo criado não foi apenas pela presença da marca, mas também pelo fato do Whole Foods estar localizado em uma dos pontos mais emblemáticos do Harlem, a esquina da Rua 125 com Malcom X Boulevard.

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Endereço nobre: esquina da Rua 125 e Malcom X Blvd

A pesquisa conduzida pelo jornal demonstra que todas estas transformações têm dividido as opiniões dos moradores. Dentre os entrevistados está o proprietário de uma pequena mercearia, que afirmou estar um pouco nervoso com a chegada do poderoso concorrente.

Por outro lado, alguns moradores tiveram outra percepção a respeito dos novos inquilinos e apontam esta migração como uma melhoria na qualidade de vida do bairro.

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O material promocional da Burlington, ao longo da Rua 125, tenta resgatar o imaginário do Harlem

Quem caminha pelas ruas do Harlem consegue facilmente perceber este conflito de opiniões. Anúncios em postes de iluminação mostram o apelo feito pelas grandes marcas, na tentativa de conseguir uma conciliação com o imaginário do bairro.

Nestas mesmas ruas passam agora os Hop-On Hop-Off, aqueles ônibus de turismo de dois andares, sempre cheio de curiosos com suas máquinas fotográficas em busca do exótico.

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Ônibus Hop-On Hop-Off: máquinas fotográficas à procura do exótico

Ao mesmo tempo, nos deparamos com manifestações contrárias ao processo de gentrificação. São cartazes fixados nos muros e, principalmente, o uso da mídia artística mais característica do Harlem: os Graffitis.

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Cartaz na esquina da Rua 116: o NÃO à gentrificação

Recentemente, um grupo de artistas locais criou um painel na Rua 116 trazendo críticas bastante ácidas em relação ao processo de gentrificação.

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Painel na Rua 116: crítica ao poder de Wall Street

Os investidores do mercado financeiro foram representados conduzindo um Cavalo de Tróia e também sob a forma do Touro de Wall Street, que aparece “invadindo” o bairro em nítida atitude de destruição. Neste painel, os artistas reservaram uma área para os moradores locais deixarem suas opiniões.

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O Cavalo de Tróia sendo conduzido pelos investidores. À esquerda o Harlem antigo e à direita as impessoais fachadas de vidro

Todas estas transformações, entretanto, ainda não foram suficientes para sufocar a efervescência cultural do Harlem, que continua sendo um dos bairros mais vibrantes de Nova York. A gentrificação do Harlem, por sua vez, não é caso isolado.

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No quadro de opiniões, alguém escreveu: “A supremacia branca é um saco”

 

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Uma crítica quanto ao “embranquecimento”do Harlem

É um processo que tem se repetido sistematicamente em muitas cidades espalhadas pelo mundo. Aconteceu com os vizinhos Williamsburg e SoHo, em Nova York, com o bairro de Friedrichshain em Berlim, com a Lapa no Rio de Janeiro, Vila Madalena em São Paulo e com a Alfama em Lisboa.

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Gravata borboleta e chapéu: toda a animação do Harlem no domingo de manhã

Este é, portanto, um momento singular da história de Nova York. Quem estiver com viagem marcada para conhecer a Big Apple, vale a pena reservar algumas horas, preferencialmente no domingo, para ter esta experiência única de conhecer o Harlem em um dinâmico processo de transformação.


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Formado em Arquitetura, tem mestrado em História pela UFMG e está em fase final do doutorado em História da Arquitetura pela Universidade Federal de Minas Gerais. Em 2017, foi bolsista pesquisador pela Fundação Calouste Gulbenkian de Lisboa. Mora há 10 anos no Upper East Side, o bairro da Uptown Girl de Billy Joel e dos seriados Gossip Girl e Revenge.

2 Comments

  • Responder junho 6, 2018

    Taís

    Que post interessante! Muito bacana conhecer a história dessa cidade linda!

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